Escrito por República Editorial no dia 11 de junho de 2010
Precisamos poder entristecer. Vivemos numa sociedade que abomina tal estado considerado desprezível, de menos valia. Vou explicar.
Tristeza é uma condição normal da existência. Ela é necessária. A sociedade atual tenta mascara-la, mas é um erro. Precisamos do “luto psíquico” para elaborarmos perdas, reinventarmos rotas e revisarmos as ações que nos levaram a pequenos “fracassos”. Ela também concentra energias criativas que, permitem elaborar melhores estratégias para o futuro, consolidando o aprendizado. Como diz Vinícius, “pra fazer um samba com beleza, é preciso de um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não”.
Já a depressão é algo mais forte, com pensamentos e comportamentos associados, presença de fatores inconscientes e/ou perda significativa de funcionalidade social. Ou seja, depressão compromete trabalho, relações, família, amigos, finanças etc. — além do tempo socialmente aceito para o luto. Não se trata de trabalhar triste; trata-se de não conseguir mais trabalhar. Não se trata de elaborar respostas para os pensamentos negativos; trata-se de ser dominado por eles, tornar-se impotente, ficar tempo demais “na fossa” perdendo a capacidade de sair, passar a ter um juízo equivocado ou excessivamente rígido da situação, com consequências desproporcionais ao fato gerador.
Só para esclarecer e comparar, todas as emoções são funcionais e importantes para todos os mamíferos, pois elas preservam a espécie: raiva, medo, tristeza, ciúme… Não se trata, portanto, de “transcender” as emoções, e menos ainda de tentar “eliminá-las” com fármacos ou truques instantâneos de auto ajuda, ou com a ajuda de gurus videntes. Elas precisam ser compreendidas, assumidas e integradas, não suprimidas ou controladas!
Mas note que assim como o medo é uma emoção útil e vital contra algo que nos ameaça, a fobia é algo que transcende, excede — quando esse medo já fica irreal. Ansiedade saudável é uma coisa, mas pânico descontrolado e sem motivo é outra. Vale o mesmo para a tristeza (normal), depressão (neurose) ou melancolia extrema (mais grave).
Precisamos poder entristecer, sofrer, chorar e nos recolher. E sem pedir aviso prévio! É triste constatar, mas estamos vivendo a histeria da felicidade… Só que a ironia disso tudo é que nunca estivemos tão infelizes… Por que será?
Vejam bem, para adentrarmos neste assunto tão sério e tão bem discutido desde os gregos antigos, recorro à etimologia da palavra que dá nome à ciência que melhor se encarregou de responder essas perguntas “demasiadamente humanas” (como diria Nietzsche), a filosofia: “Filia”: enamoramento, aproximação respeitosa, amor, amizade, aliança, vínculo, laço; e “Sofia”: sabedoria. Esta postura remota de humildade e investigação contínua pode ser bem percebida em proposições socráticas, evidentes por si mesmas, tais como: “O filósofo é o ignorante que sabe que é ignorante, portanto, pode vir a saber”; “O verdadeiro conhecimento vem de dentro”; “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”.
Estes axiomas, não trazem respostas prontas, indicam caminhos… só que caminhar é sair da zona de conforto: cansa, requer esforço e empenho, tempo e dinheiro… e isso, ah!… dá trabalho… não tem nada assim mais rápido e fácil?
Estamos na era do “fast tudo”. Faz-se de tudo e mal feito, o homem conecta-se com tudo e sabe cada vez menos, afinal, como pode estar o nosso cérebro com tantas janelas abertas ao mesmo tempo? Lento, ineficiente e prestes a travar!
Estava falando da tal felicidade, que a cada dia mais se distancia desta dinâmica maluca, esquizo-paranóide, onde, no mínimo, estamos dissociados em duas realidades. Aliás, será que sabemos onde estamos a cada momento, pois quem está conectado com tantas coisas não está em lugar nenhum!!! Tá na porta do Hades…
No século passado a doença da moda era a histeria, porque as mulheres eram extremamente reprimidas e oprimidas em seus espartilhos. Hoje em dia, vivemos novas “loucuras”, mais contemporâneas: depressão, bipolaridade, mania, hipomania, síndrome do pânico, insônia, tic, TOC — doenças originárias da lavagem cerebral desta neurose capitalista coletiva, da insensibilidade entres os homens, cada vez mais desumanos e maniqueístas, da ausência de contato. Sobrevida fútil, ataxia. Solidão.
E dá-lhe antidepressivos, ansiolíticos, neurolépticos, analgésicos, antiinflamatórios ou se preferirem, drogas, álcool tudo o que entorpeça a dor e a cor da dor. Sentir nos dias de hoje é perigoso, melhor “paralisar” e parar o mal-estar a todo preço. Só que a vida não cessa de se mexer e remexer com as nossas bases “seguras”, que, como areia movediça, nos lança a desafios contínuos chamados sofrimento. Sua inevitabilidade apavora os que teimam em resistir… Ignorante teimosia, pois mesmo querendo conter, a vida é devir!
Os livros vendem a ideia falaciosa de uma equação que sirva para todos e resolva o problema de todos. Daqui a pouco, a felicidade será vendida como mercadoria nas lojas. Felicidade não é artigo, é assunto de luxo.
Na língua falada pelos antigos gregos, muitas palavras eram utilizadas para definir as várias experiências humanas associadas à felicidade. A maioria estava associada à idéia de prosperidade (olbos) e sorte (tyche). Contudo, a palavra principal para a vivência da felicidade no grego antigo é: Eudaimonia. Eudaimon é o adjetivo para “feliz”. Na etimologia: “Eu”: bom; “Daimon”: que tem um poder divino. Ou seja: nossa voz interiro, espécie de estado de consciência acerca de quem realmente somos, nossa essência mais profunda. “Voz” da intuição, “feeling”, gênio, inteligência. No dicionário etimológico Larrousse: “Estado de realização, que independe de qualquer outra coisa para existir. Estar pleno de si; sensação de paz decorrente de um modo de vida apropriado; boa vontade.
Como veem, a felicidade genuína não tem nada a ver com a descartável e vendida por aí. Implica em muito mais do que se imagina, está para além do que as lojas nos podem dar, do que as “coisas materiais” podem aplacar, do consumo frenético vendido pela mídia. Ela está no silêncio, aí dentro de cada um, mas somente acessado por cada um. Atitude que requer retificação e replanejamento de vida. Momento sagrado de jogar fora o que só dá prazer imediato e é inútil, e se agarrar ao que traz sentido e aumenta nossa potência de vida, nosso “conatus”, como diria Espinosa. Solitude — estar pleno em si mesmo.
Quero finalizar este artigo, fazendo um convite à uma reflexão de valores através do recolhimento, pelo autoconhecimento, única via de acesso à interioridade, condição em que podemos aprender a nos conhecer, para então reconhecer nossas forças e fraquezas e sair desse encontro ainda mais fortes e seguros para o embate da vida, para a incrível descoberta do mundo e de todas as pessoas, forma única de crescimento.
Crescer dói sim, mas excita… Viver é bom e também machuca, fato inexorável, mas nem por isso devemos nos acovardar frente a esta empreitada necessária. Seguir a vida é se deixar fluir e fluir com ela, atitude interior confiante no processo, atitude de alegria e coragem (“core”: coração, agir pelo coração). Coragem é mais: é ir com o medo, é usar a raiva como combustível implacável, só que de maneira saudável. É enfrentamento. É saudar a vida!
Fugir da dor compulsivamente é fugir da vida, atitude patife. É fugir de si mesmo, de encarar o que é seu. É negar vida. É ficar no chão, de joelhos. Infâmia! Frustração na certa. Patologia.
Viver de verdade requer saber escolher, mas não escolher qualquer coisa, a qualquer hora e de qualquer jeito. Pede a boa deliberação, sabedoria, e não apenas conhecimento. É saber escolher entre o necessário (singular) e o contingente (plural, múltiplas escolhas), como diria novamente o grande filósofo Espinosa. Liberdade caminha ao lado de responsabilidade.
Liberdade não é o mesmo que livre arbítrio. Arbitrar livremente e de qualquer jeito é egoísmo, inconseqüência, ilusão e delírio dos imaturos.
Desejo à todos a felicidade própria dos homens reais. Sejam felizes na alegria e na tristeza, jamais tolos e inertes. VIVAM!
KARINA HADDAD MUSSA
Psicóloga Cognitiva-comportamental especializada em técnicas Cognitivas e Comportamentais pelo Albert Ellis Institute de Nova York, EUA; especialista em medicina Comportamental e Terapias Cognitivas – UNIFESP e EPM
neuropsicologia pela UNIFESP. Atualmente desenvolve discussões filosóficas sobre as virtudes humanas e seus desvios como processo terapêutico no Instituto de Medicina Comportamental da UNIFESP
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